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A épica jornada de aceitar um convite numa terça-feira

Existem aventuras que ninguém te prepara para enfrentar depois dos 40.
Nada de montanhismo, maratona ou triatlo.
Estou falando de aceitar um convite numa terça-feira à noite.

O convite chega simples, inocente, quase ingênuo:
“Vamos tomar uma hoje?”

Hoje.
Terça-feira.
18h17.

O cérebro adulto não responde. Ele simula cenários.


O chamado da aventura (também conhecido como mensagem no WhatsApp)

Você já sabe como isso começa e como costuma terminar.
Não é trauma. É memória muscular.

Amanhã tem trabalho.
O corpo não se recupera como antes.
Você sabe que duas cervejas hoje viram um déficit de energia amanhã.

Mesmo assim, algo desperta.

Aquela parte sua que ainda acredita que dá.
Que pensa:
“Vai ser rápido.”
“Só uma.”
“Eu volto cedo.”

Frases clássicas de quem está prestes a subestimar o custo logístico da vida social.


A preparação do herói (ou a ilusão de controle)

Antes de sair, você se prepara como quem vai para uma missão tática.

Roupa confortável, mas “apresentável”.
Sapato que não machuca.
Casaco “por via das dúvidas”.
Celular com bateria.

Você sai de casa convicto de que desta vez será diferente.
Que você é um adulto consciente.
Que sabe a hora de ir embora.

Esse pensamento costuma durar até o primeiro pedido.


A travessia do bar (território hostil)

O bar é barulhento. Sempre foi.
Mas hoje ele parece mais barulhento do que o normal.

Alguém chega atrasado.
Outro resolve pedir petisco.
A conversa engrena justo quando você pensa:
“ok, agora dá pra ir.”

E então surge a pergunta fatal, ecoando como um trovão épico:

“Mais uma?”

Não é uma pergunta.
É uma prova.

Aceitar significa seguir adiante na jornada.
Recusar exige energia social — outro recurso escasso depois dos 40.

Você aceita.
Porque explicar cansa mais do que beber.


O ponto sem retorno

Nesse momento, a aventura já está fora de controle.

Já passou da “saída estratégica”.
Você entrou na fase conhecida como
“agora já foi”.

O relógio avança de forma hostil.
A cadeira é desconfortável.
O volume da música sobe sem motivo.

Você começa a negociar consigo mesmo:
“Só mais dez minutos.”
“Depois dessa eu vou.”

Mentiras nobres.
Necessárias para manter a sanidade.


O retorno para casa (a descida do herói cansado)

Você chega em casa mais tarde do que pretendia.
Não tarde o suficiente para justificar.
Mas tarde o bastante para comprometer.

O sono vem fragmentado, como um Wi-Fi ruim.
Você acorda com aquela sensação específica de
“não foi grave, mas foi evitável”.

No banho da manhã seguinte, acontece o ritual silencioso:
você encara o azulejo e pensa:

“Por que eu faço isso comigo?”

Não há resposta.
Apenas aceitação.


Conclusão épica

Depois dos 40, aceitar um convite numa terça-feira não é socializar.
É gerenciamento de risco em ambiente urbano.

Não é que você não goste das pessoas.
É que agora você conhece o custo total da experiência — inclusive o que aparece no dia seguinte.

Ainda assim, às vezes você vai.
Porque viver só no modo seguro também cansa.

Mas da próxima vez que alguém disser
“é só uma terça-feira”,
lembre-se:

Terça-feira é o novo sábado.
E aceitar esse convite é, sim, uma jornada épica.

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