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O medo de virar irrelevante

E por que ele aparece justamente depois dos 40

O medo não surge do nada.
Ele não chega anunciando.
Não vem com crise, nem com ataque de pânico.

Ele aparece num pensamento rápido, quase bobo, tipo:

“Será que eu ainda importo?”

Você não fala isso em voz alta.
Nem escreve.
Só deixa passar — como quem fecha uma aba estranha no navegador da cabeça.

Mas ele volta.


Quando a sensação não é fracasso, é deslocamento

O curioso é que esse medo raramente vem acompanhado de desastre.

Você não perdeu tudo.
Não foi demitido.
Não ficou sem amigos.
Não virou invisível do dia para a noite.

Na verdade, muitas vezes a vida está funcionando.

E talvez seja isso que incomoda.

Depois dos 40, você percebe que:

  • não é mais o mais novo da sala
  • não é mais o “promissor”
  • não é mais a aposta

Você virou o estável.

E estabilidade não recebe muitos aplausos.


O fim da fase em que “potencial” impressiona

Antes dos 40, você era avaliado pelo que poderia vir a ser.
Depois dos 40, você passa a ser avaliado pelo que já é.

Isso muda tudo.

Potencial empolga.
Entrega sustenta.

Mas entrega raramente vira manchete.

Você começa a notar que:

  • ideias novas geram mais atenção do que ideias boas
  • entusiasmo pesa mais que consistência
  • barulho é confundido com relevância

E você… já não faz tanto barulho.


O algoritmo não gosta de maturidade

Vamos ser honestos:
o mundo moderno não é exatamente gentil com a maturidade.

Tudo favorece:

  • novidade
  • velocidade
  • simplificação
  • opinião forte em pouco tempo

Você, por outro lado:

  • pensa antes de falar
  • relativiza
  • explica demais
  • responde “depende”

Ou seja: você ficou péssimo para o algoritmo.

E aí surge a sensação incômoda de estar ficando para trás, quando na verdade você só parou de competir no jogo errado.


Quando ninguém mais pede sua opinião — e quando pedem demais

O medo de irrelevância tem duas versões curiosas.

A primeira é o silêncio:
ninguém pergunta, ninguém chama, ninguém consulta.

A segunda é o oposto:
te procuram só para validar decisões que já tomaram. – falamos sobre isto neste outro post.

Em ambos os casos, a pergunta aparece:
“Qual é exatamente o meu lugar agora?”

Depois dos 40, essa pergunta não é existencial.
É prática.


A confusão entre visibilidade e importância

Aqui está o erro mais comum.

Relevância virou sinônimo de visibilidade.
E visibilidade virou sinônimo de barulho.

Mas depois dos 40, você começa a ocupar outro espaço:
menos palco, mais bastidor.

Você não é mais quem levanta a mão primeiro.
É quem as pessoas procuram depois da reunião.

Você não é mais quem propõe tudo.
É quem ajuda a decidir o que não fazer.

Isso não aparece no feed.
Mas evita muito erro.


O medo não é virar irrelevante. É virar descartável.

Quando você olha mais fundo, o medo não é desaparecer.
É não ser necessário.

É sentir que:

  • qualquer um poderia estar no seu lugar
  • sua experiência não faz diferença
  • sua presença não altera nada

Esse medo não vem da vaidade.
Vem da percepção de que você já investiu tempo demais para ser tratado como substituível.


A virada silenciosa que ninguém comenta

Existe um momento sutil depois dos 40 em que a relevância muda de forma.

Ela deixa de ser:
“olhem para mim”

E passa a ser:
“isso ficou melhor porque eu estava aqui”

Menos aplauso.
Mais impacto invisível.

Menos reconhecimento imediato.
Mais consequência positiva no longo prazo.

O problema é que ninguém te conta isso.
E o silêncio parece abandono.


O risco de tentar provar relevância tarde demais

Aqui mora a armadilha.

Quando o medo aperta, surge a tentação de:

  • falar mais alto
  • opinar sobre tudo
  • parecer atualizado à força
  • competir com quem está em outra fase

Isso raramente funciona.
E quase sempre cansa.

Depois dos 40, tentar parecer relevante é o caminho mais rápido para se sentir deslocado.


Conclusão

O medo de virar irrelevante aparece depois dos 40 porque a régua muda.
E ninguém te avisa.

Você não está perdendo valor.
Está mudando de função.

Talvez você não seja mais a novidade.
Mas virou referência.
Talvez não seja mais o centro.
Mas virou sustentação.

E isso não gera aplauso.
Gera efeito.

Depois dos 40, relevância não grita.
Ela segura.

E talvez o verdadeiro sinal de maturidade seja aceitar que importar menos para o barulho
pode significar importar mais para o que realmente fica.

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